O dia que o Yelp me pregou uma peça

Ontem foi aniversário de um amigo e eu quis presenteá-lo com uma garrafa de Bordeux. 

Lembrei-me que havia na cidade uma loja de vinhos especializada em rótulos franceses. Ao sair do trabalho de manhã, fiz uma busca e, antes mesmo do primeiro resultado, havia um belo snippet do Yelp indicando a localização da loja. 

“Mão na roda!” foi o que pensei. 

Como é bom viver no futuro, né?

Na hora coloquei o endereço no GPS e pus-me a dirigir para o shopping onde compraria o presente.

Chegando lá, rodei os três andares do shopping e nada de encontrar a loja. Perguntei para o segurança e ele nem sabia do que eu estava falando. Aproveitei a minha estada no shopping e acabei comprando outras coisas. Numa das lojas que entrei, perguntei para a vendedora, que também fez cara de charada. Uma outra pessoa que estava comprando na loja até arriscou dizer que era um restaurante, não uma loja de vinhos. Para a minha infelicidade, ela também estava errada.

Comprometi minha hora de almoço procurando o presente. Problema de primeiro mundo, eu sei. 

Mais tarde, acabei comprando o presente em outra loja de vinhos da cidade. Mas aquilo me deixou inquieto. A loja certamente fechou mas muita gente pode estar sendo levada a um local fantasma pelo Yelp. Isso sem contar nas vezes que o GPS (estou falando de você, Waze) nos leva para um lugar que já não existe mais. 

Não tenho o Yelp instalado em meu telefone e não sei se é possível indicar que algum estabelecimento fechou. Tenho o Waze e sei que não consegui fazer este alerta quando fui levado a uma loja que não mais existe. Talvez até exista esta função. Mas eu não a encontrei. Creio, no entanto, ser bem provável que esta função não existe. Afinal, se isso fosse possível, já teria um monte de gaiato apagando os concorrentes do mapa, né?

De qualquer forma, acho que o empreendedor (ou quem cuida de sua presença digital) deve ser responsável por isso. É uma questão importante. Não dá pra negar. Acho que o exemplo em questão ajuda na argumentação acerca da importante necessidade de controlar os dados sobre os nossos negócios (ou os negócios de nossos clientes) na internet.

Precisarmos conversar sobre estas vagas em Comunicação

No Facebook eu mantenho um grupo para a pós em Comunicação Digital (curso que coordeno). Neste grupo eu costumo postar ofertas de empregos das diversas agências que sigo naquela plataforma.

Um dia eu postei uma vaga e a postagem proporcionou uma bela discussão. Resolvi publicar o que se concluiu da discussão aqui porque acredito que este tipo de conteúdo não merece ficar confinado no Facebook onde muita gente jamais vai ver. Acredito que muita gente precisa ver isso.

Os proprietários de agências de comunicação e de empresas que contratam profissionais de comunicação precisam ver isso.

Como disse, tudo começou com a postagem de uma vaga.

O primeiro comentário que apareceu foi de um membro da comunidade do curso dizendo que, com aqueles requisitos e remuneração, a vaga chegava a ser ofensiva.

Ele tem total razão. Chega a ser ofensivo. Achei muito bacanas as ponderações dele. Não discordo de forma alguma que as coisas deveriam ser diferentes. Foi aí que me pus a pensar: Quem sabe este tipo de oferta represente um sintoma de algo mais grave? Será mesmo que a pessoa que fez a descrição desta vaga tem o domínio do que envolve cada uma das atividades? Será mesmo que a pessoa que será contatada terá todas estas atribuições? Será que esta pessoa existe?

Com estas questões em mente, acho que a nossa abordagem poderia ser a seguinte:

Não devemos recusar participar de processos como este. Acho que pelo contrário. A gente tem que participar e tem que tentar, de alguma maneira, mostrar que às vezes são atividades que não fazem parte do mesmo pacote ou que, se fizerem, demandam um investimento maior por parte do contratante.

Acredito que este sintoma demonstra que muita gente não sabe nada ou sabe muito pouco do que envolve o trato em comunicação digital e, claro, em marketing digital também. 

É o que falo em sala de aula na disciplina de Cibercultura. Tem muita gente que faz o que se costuma chamar de Marketing Digital e na real não tem o domínio ou mesmo a noção das atividades que estão envolvidas nisso. 

Entendo que isso pode ser a consequência de uma área em que muitos aventureiros se desbravam e que se desenvolveu meio que “nas coxas”. Isso é muito ruim e traz como consequências estes sintomas que a vaga representa. 

Acontece. Mas a gente pode tentar mudar, mostrando que a coisa não necessariamente é bem assim. Que tal? Confesso que no dia que argumentei isso eu estava com um olhar bastante positivo sobre a coisa toda.

De qualquer forma, eu tento fazer isso como posso. Uma delas é por meio da capacitação de profissionais no curso de Comunicação Digital; tento fazer isso da melhor maneira que consigo. Mas entendo que talvez precisamos fazer mais.

Confesso que tentei antes também via podcast (o Ainda Sem Nome era uma iniciativa nesse sentido). Talvez seja necessário algo além. 

O aluno me respondeu dizendo algo que, novamente, é bastante compreensível. De acordo com ele, suas aventuras por esse meio já datam de mais de ano e não tem dado um bom retorno. Ele reporta na prática algo que falo em sala há tempos: sobra trabalho / falta emprego. Freelancers até conseguem sobreviver, mas à duras custas. Ele relata que os empregos costumam ter descrições como esta, indicando grande demanda de expertise e baixa remuneração (em outras palavras: exploração).

Ele ainda acrescenta:

Fora o leilão inverso que tem sido as vagas que dizem “favor informar pretensão salarial”… eu até desanimo… Pra mim sempre soa como um leilão ao contrário, algo como “quem topa por menos?

Pow… a gente rala pra caramba pra ter uma visão global da comunicação digital, se especializa… tira certificações, procura cursos online que complementam a formação e se depara com uma vaga dessas, eu sinceramente, não me submeto a perder um dia produtivo pra ir fazer uma entrevista de uma vaga só pra dizer que o que eles estão pedindo não condiz o que eles estão oferecendo…

E, repetindo pela, sei lá, quinta vez: ele tem razão. A galera que anda postando estas vagas parece estar muito fora da realidade. Ou então (minha aposta mais positiva) não tem a menor noção do que se trata comunicação digital.

Claro que há que se considerar que a prática da contratação por PJ ajudou muito a reforçar este esquema precário de trabalho. O salário oferecido por esta empresa está até dentro da faixa de salários para um Analista de Marketing JUNIOR, deve-se ressaltar. Tudo bem que está lá na parte inferior do gráfico. Críticos podem usar este argumento para tentar desconstruir a questão. No entanto, é importante que se considere que os valores referem-se a salários de analistas JUNIOR e que a lista de demandas de expertise não são 100% compatíveis com isso.

Mas qual seria a solução?
Eu tenho pra mim que é preciso educar as pessoas. Educar os clientes e os contratantes. Digo isso porque, na lógica do leilão reverso que que o aluno falou (que infelizmente é a prática), a empresa acaba se dando mal, pois o profissional que se dispõe a encarar isso está numa situação de desespero financeiro total ou então não tem noção do que vai enfrentar. 

No primeiro caso, o portifolio construído o tirará da empresa rapidamente. No segundo caso a empresa corre sério risco de se dar mal. E aí será um aprendizado a duras penas.

Talvez, atuar neste mercado seja uma aposta de médio e longo prazo; até que este aprendizado contemple mais empresas.

Ai, como se não bastasse, dias depois chega essa vaga:

Imagino que depois de ler a proposta você tenha tirado uns minutos para se recompor. Outro colega do grupo se manifestou prontamente:

deixa ver se entendi, tem que gravar e editar vídeos, fazer social media, seo e wordpress?

É de lascar.

Bastante complicado isso de ficar exigindo mundos e fundos em termos de expertise e diferenciais e pagar 2 salários mínimos (ou às vezes nem isso). O fato é que as pessoas precisam aprender (ou cair na real). Não existe profissional mágico que vai saber editar vídeo, dominar Ruby on Rails e ser fera em técnicas de SEO. Este camarada simplesmente não existe. Tem gente que tem noção destas três coisas? Claro! Mas não existe o profissional proficiente nestes assuntos (ou outros três que sejam tão distintos quanto).

Das duas, uma: ou profissional que tem todas estas capacitações simplesmente não existe ou, se existe (vai que, né?) ele demanda um salário muito maior do que você está disposto a pagar. Fato.

Ah, Caio. Mas nessa última vaga nem tem o valor do salário! Vai que é um baita ordenado?

Duvido. E, parafraseando Julinho, digo mais: se você está abrindo uma vaga e não faz ideia de qual deve ser o salário da pessoa que vai trabalhar, há algo de muito errado acontecendo. Falo isso com (propriedade, hehe) relação aos pedidos de pretensão salarial. Pedir pretensão salarial é contraprodutivo! Coloque o valor do salário que você está disposto a pagar; muito melhor do que ficar fazendo profissionais perderem o tempo deles colocando pretensões que você não consegue pagar. Como o colega disse, fica com aquela impressão de leilão reverso que apenas prejudica quem se envolve.

Pois bem. Apesar de tudo, eu acho que a ficha está pra cair. As pessoas estão para entender que Comunicação Digital é mais do que postar uma vez por dia no Facebook e também que fazer comunicação digital demanda uma série de expertises que não necessariamente estão todos reunidos numa única pessoa. Eu tenho pra mim que este aprendizado vai acabar chegando a mais gente. Sei lá. Hoje eu estou otimista como estava no dia em que postei a conversa no grupo.

Um sentimento indescritível

Eu sei que dura pouco. E sei que é um esforço constante e – muitas vezes – inútil.

No entanto, quando a gente consegue, dá uma sensação boa. Uma coisa que é difícil de explicar.

Para referência, recomendo estes dois livros que me ajudaram bastante no assunto: Bit Literacy, do Mark Hurst e GTD, do David Allen.

No entanto, se bater aquele desespero, relaxe e declare falência.

Notícias sobre Publicidade em Português do Brasil

Se você curte ou se interessa pelo universo da Publicidade e Propaganda, acabo de criar um canal no Telegram que pode ser bem legal para você acompanhar. O canal se chama Notícias sobre Publicidade em Português do Brasil e reúne fontes interessantes sobre o tema.

Se você quiser acompanhar, basta ter o Telegram instalado. Sei que para muitos isso representa mais um app em seu telefone, mas, vá por mim: vale a pena. Por enquanto, o canal está com seis fontes de notícias:

  • Clube de Criação
  • ADNews
  • PropMark
  • Comunicadores
  • Meio & Mensagem
  • Blue Bus

Se você tiver mais alguma sugestão de fonte de notícias sobre Publicidade em PT-BR, basta me falar que eu adiciono ao canal.

Mas, Caio, qual a vantagem disso?

É simples! Se você gosta de um assunto, provavelmente você deve seguir algumas publicações especializadas sobre esse assunto em plataformas sociais, né? Só que o negócio destas plataformas é justamente o de impedir que todo mundo que curtiu alguma coisa de receber notícias sobre essa coisa (forçando, assim, o dono da publicação a ficar “impulsionando” e comprando mídia na plataforma). 

Ou seja. Por mais que você goste de Publicidade e siga estas mesmas fontes que eu listei acima no Facebook, por exemplo, chances são que você vê, no máximo 10% do que eles postam.

No canal que criei no Telegram, você vai ver tudo o que cada um destes sites publica. Sacou?

Te vejo !

Tudo sobre tod@s


Já há algum tempo fiz a leitura do livro Tudo sobre tod@s, de autoria do prof. Sérgio Amadeu, como parte da preparação de uma conferência que acabei não proferindo (uma pena, aliás). 

Recentemente recuperei esta leitura porque estou transformando o material que usaria na conferência em um artigo. Nesse sentido, decidi falar um pouco do livro aqui, como parte do processo de recuperação do assunto e, claro, para compartilhar e indicar a leitura.

Antes de qualquer coisa, devo dizer que o livro tem leitura bastante recomendada. O texto do professor Amadeu é bastante interessante. Elucidativo sobre as ameaças dos dispositivos que carregamos em nossos bolsos especialmente no que diz respeito às capacidades de -por meio deles- empresas descobrirem cada vez mais sobre nós e nossos hábitos. 

Há muitas reflexões bacanas sobre privacidade e o autor nos apresenta o tempo todo aos argumentos e contra-argumentos que envolvem a privacidade e propriedade dos dados. Penso tratar de uma boa referência sobre o tema escrita por um autor brasileiro.

Entretanto há que se considerar que, embora o texto apresente excelentes argumentos muito bem embasados e ótimas recomendações e referências, em outros momentos a redação informal e quase condescendente incomoda um pouco. 

Outra coisa que me chamou a atenção – desta vez de maneira bastante positiva – foi a busca por referencial da área de gestão. Isso é bastante legal por parte do autor. Apesar disso, me surpreendeu que, mesmo com esta busca, o texto trate de criação de necessidades; algo que é bastante controverso. Mais fácil talvez seja formos em criação de desejos a partir de descobertas de tendências e culturas por meio de dispositivos de vigilância como os smartphones. Além disso a ideia de que as bolhas formadas em função da atuação de algoritmos nas plataformas seja algo pensado não me parece encontrar pleno respaldo.

De qualquer forma, acho que é um texto muito importante e necessário. Creio que será encarado como uma leitura básica e imprescindível sobre o assunto.

Retomando este espaço

Iniciando o ano e também retomando um antigo hábito: o de escrever mais aqui. Isso vai mudar. Por 3 motivos bem simples:

1 – Precisamos reocupar nossos sites pessoais e deixar as plataformas mediadas por algoritmos.
A iniciativa de ontem serviu de prenúncio. Estamos abandonando espaços válidos de presença online (sites pessoais e blogs) e adotando plataformas outras (Facebook, Twitter, Instagram, Medium) que não nos pertencem e que não permitem que nosso conteúdo chegue à totalidade de nossa audiência.

2 – As plataformas sociais fazem mais mal do que bem.
Esta pode ser novidade para você, mas é a minha mais recente motivação. E está baseada não só em meus achados de investigações sobre plataformas sociais. Some a esses achados de minha autoria os escritos por Jaron Lanier e Cal Newport. Ambos, em seus livros demonstram que as plataformas sociais fazem mais mal do que bem para a gente. O primeiro está preocupado na questão social enquanto o segundo, na produtividade.

3 – É divertido!
Escrever no meu próprio site e interagir com as pessoas aqui (por meio dos comentários e e-mail) é muito mais legal do que aquela chatice das plataformas. Aqui a coisa é mais legal (eu controlo o visual do que eu publico) e íntima.

Espero apenas manter o ritmo!

Notícias em português do Brasil

Estamos prestes a começar 2019 e gostaria de informar que criei um canal que (em tese) posta automaticamente notícias em português do Brasil no Telegram. Se quiserem me ajudar a testar e usar este canal ao invés de plataformas mediadas por algoritmos (que não mostram tudo) para ler notícias, sintam-se livres para entrar no canal e divulgar:

https://t.me/noticiasemportuguesdobrasil

Até agora as fontes são:
– Nexo
– Agência Pública
– Ponte
– Jota
– Intercept
– BBC
– El País
– Brasil de Fato

Se tiver alguma indicação extra de fonte de notícias, mande pra que eu adicione ao canal.

Não deixe decisões editoriais nas mãos de plataformas

Durante esta primeira semana de Setembro estive em Joinville para participar do 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom. Lá, um dos assuntos discutidos no GT de Comunicação Digital foi o de que veículos de comunicação acabam por buscar soluções prontas (plataformas sociais como o Facebook) para distribuir seu conteúdo. O professor Andre Pase lembrou também, em uma discussão bem interessante, que até adotar plataformas outras (como Disqus ou o próprio Facebook) para comentários em seus sites representa esta ação de buscar uma solução pronta para tratar seu conteúdo.

Esta solução pode parecer sedutora. Afinal são 2 bilhões de pessoas conectadas ao Facebook. Só que apenas uma parte bem pequena delas curte sua fan page e uma fração menor ainda efetivamente vê o que você posta. Para piorar, as coisas que você posta em sua fan page podem ser apagadas pelo próprio Facebook quando ele (por meio de seus algoritmos) julga que aquele conteúdo não é apropriado. Este exemplo relatado pelo Nieman Lab mostra exatamente isso.

Está passando da hora de percebermos (todos nós) que a web é, em sua essência, social. Não precisamos destas plataformas proprietárias e voltadas exclusivamente para uma operação lucrativa para atuarmos em rede, num contexto social.