Precisarmos conversar sobre estas vagas em Comunicação

No Facebook eu mantenho um grupo para a pós em Comunicação Digital (curso que coordeno). Neste grupo eu costumo postar ofertas de empregos das diversas agências que sigo naquela plataforma.

Um dia eu postei uma vaga e a postagem proporcionou uma bela discussão. Resolvi publicar o que se concluiu da discussão aqui porque acredito que este tipo de conteúdo não merece ficar confinado no Facebook onde muita gente jamais vai ver. Acredito que muita gente precisa ver isso.

Os proprietários de agências de comunicação e de empresas que contratam profissionais de comunicação precisam ver isso.

Como disse, tudo começou com a postagem de uma vaga.

O primeiro comentário que apareceu foi de um membro da comunidade do curso dizendo que, com aqueles requisitos e remuneração, a vaga chegava a ser ofensiva.

Ele tem total razão. Chega a ser ofensivo. Achei muito bacanas as ponderações dele. Não discordo de forma alguma que as coisas deveriam ser diferentes. Foi aí que me pus a pensar: Quem sabe este tipo de oferta represente um sintoma de algo mais grave? Será mesmo que a pessoa que fez a descrição desta vaga tem o domínio do que envolve cada uma das atividades? Será mesmo que a pessoa que será contatada terá todas estas atribuições? Será que esta pessoa existe?

Com estas questões em mente, acho que a nossa abordagem poderia ser a seguinte:

Não devemos recusar participar de processos como este. Acho que pelo contrário. A gente tem que participar e tem que tentar, de alguma maneira, mostrar que às vezes são atividades que não fazem parte do mesmo pacote ou que, se fizerem, demandam um investimento maior por parte do contratante.

Acredito que este sintoma demonstra que muita gente não sabe nada ou sabe muito pouco do que envolve o trato em comunicação digital e, claro, em marketing digital também. 

É o que falo em sala de aula na disciplina de Cibercultura. Tem muita gente que faz o que se costuma chamar de Marketing Digital e na real não tem o domínio ou mesmo a noção das atividades que estão envolvidas nisso. 

Entendo que isso pode ser a consequência de uma área em que muitos aventureiros se desbravam e que se desenvolveu meio que “nas coxas”. Isso é muito ruim e traz como consequências estes sintomas que a vaga representa. 

Acontece. Mas a gente pode tentar mudar, mostrando que a coisa não necessariamente é bem assim. Que tal? Confesso que no dia que argumentei isso eu estava com um olhar bastante positivo sobre a coisa toda.

De qualquer forma, eu tento fazer isso como posso. Uma delas é por meio da capacitação de profissionais no curso de Comunicação Digital; tento fazer isso da melhor maneira que consigo. Mas entendo que talvez precisamos fazer mais.

Confesso que tentei antes também via podcast (o Ainda Sem Nome era uma iniciativa nesse sentido). Talvez seja necessário algo além. 

O aluno me respondeu dizendo algo que, novamente, é bastante compreensível. De acordo com ele, suas aventuras por esse meio já datam de mais de ano e não tem dado um bom retorno. Ele reporta na prática algo que falo em sala há tempos: sobra trabalho / falta emprego. Freelancers até conseguem sobreviver, mas à duras custas. Ele relata que os empregos costumam ter descrições como esta, indicando grande demanda de expertise e baixa remuneração (em outras palavras: exploração).

Ele ainda acrescenta:

Fora o leilão inverso que tem sido as vagas que dizem “favor informar pretensão salarial”… eu até desanimo… Pra mim sempre soa como um leilão ao contrário, algo como “quem topa por menos?

Pow… a gente rala pra caramba pra ter uma visão global da comunicação digital, se especializa… tira certificações, procura cursos online que complementam a formação e se depara com uma vaga dessas, eu sinceramente, não me submeto a perder um dia produtivo pra ir fazer uma entrevista de uma vaga só pra dizer que o que eles estão pedindo não condiz o que eles estão oferecendo…

E, repetindo pela, sei lá, quinta vez: ele tem razão. A galera que anda postando estas vagas parece estar muito fora da realidade. Ou então (minha aposta mais positiva) não tem a menor noção do que se trata comunicação digital.

Claro que há que se considerar que a prática da contratação por PJ ajudou muito a reforçar este esquema precário de trabalho. O salário oferecido por esta empresa está até dentro da faixa de salários para um Analista de Marketing JUNIOR, deve-se ressaltar. Tudo bem que está lá na parte inferior do gráfico. Críticos podem usar este argumento para tentar desconstruir a questão. No entanto, é importante que se considere que os valores referem-se a salários de analistas JUNIOR e que a lista de demandas de expertise não são 100% compatíveis com isso.

Mas qual seria a solução?
Eu tenho pra mim que é preciso educar as pessoas. Educar os clientes e os contratantes. Digo isso porque, na lógica do leilão reverso que que o aluno falou (que infelizmente é a prática), a empresa acaba se dando mal, pois o profissional que se dispõe a encarar isso está numa situação de desespero financeiro total ou então não tem noção do que vai enfrentar. 

No primeiro caso, o portifolio construído o tirará da empresa rapidamente. No segundo caso a empresa corre sério risco de se dar mal. E aí será um aprendizado a duras penas.

Talvez, atuar neste mercado seja uma aposta de médio e longo prazo; até que este aprendizado contemple mais empresas.

Ai, como se não bastasse, dias depois chega essa vaga:

Imagino que depois de ler a proposta você tenha tirado uns minutos para se recompor. Outro colega do grupo se manifestou prontamente:

deixa ver se entendi, tem que gravar e editar vídeos, fazer social media, seo e wordpress?

É de lascar.

Bastante complicado isso de ficar exigindo mundos e fundos em termos de expertise e diferenciais e pagar 2 salários mínimos (ou às vezes nem isso). O fato é que as pessoas precisam aprender (ou cair na real). Não existe profissional mágico que vai saber editar vídeo, dominar Ruby on Rails e ser fera em técnicas de SEO. Este camarada simplesmente não existe. Tem gente que tem noção destas três coisas? Claro! Mas não existe o profissional proficiente nestes assuntos (ou outros três que sejam tão distintos quanto).

Das duas, uma: ou profissional que tem todas estas capacitações simplesmente não existe ou, se existe (vai que, né?) ele demanda um salário muito maior do que você está disposto a pagar. Fato.

Ah, Caio. Mas nessa última vaga nem tem o valor do salário! Vai que é um baita ordenado?

Duvido. E, parafraseando Julinho, digo mais: se você está abrindo uma vaga e não faz ideia de qual deve ser o salário da pessoa que vai trabalhar, há algo de muito errado acontecendo. Falo isso com (propriedade, hehe) relação aos pedidos de pretensão salarial. Pedir pretensão salarial é contraprodutivo! Coloque o valor do salário que você está disposto a pagar; muito melhor do que ficar fazendo profissionais perderem o tempo deles colocando pretensões que você não consegue pagar. Como o colega disse, fica com aquela impressão de leilão reverso que apenas prejudica quem se envolve.

Pois bem. Apesar de tudo, eu acho que a ficha está pra cair. As pessoas estão para entender que Comunicação Digital é mais do que postar uma vez por dia no Facebook e também que fazer comunicação digital demanda uma série de expertises que não necessariamente estão todos reunidos numa única pessoa. Eu tenho pra mim que este aprendizado vai acabar chegando a mais gente. Sei lá. Hoje eu estou otimista como estava no dia em que postei a conversa no grupo.

2 thoughts on “Precisarmos conversar sobre estas vagas em Comunicação

  1. Professor,
    Concordo com você, essa ficha aos poucos está caindo. As pessoas procuradas nessas vagas são o que chamamos aqui de “unicórnio alado roxo”. Quer dizer… Não existem.
    Essa falta de clareza custa caro para quem contrata, como bem observou, na falta de retenção, ou na baixa qualidade mesmo.
    Para adicionar outra perspectiva, também há a ficha para cair de uma geração jovem, que chega agora ao mercado de trabalho. Ela sofre com a ansiedade de ser profissionalmente reconhecida na velocidade da luz. Acha que vai criar o case do ano na primeira semana de empresa, e se frusta rapidamente por que “não souberam aproveitar todo o potencial que ela tinha a oferecer”.

    Esse papo rende!
    Abraço

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