Este texto não termina

Tem um tanto de coisa acontecendo e a gente está perdidinho da silva

Escrevo estas linhas sem saber muito bem para onde vou. Há exatos 31 dias entrei em casa e não mais saí. No máximo fui até a portaria do prédio receber encomendas. Estou em isolamento social na esperança de colaborar para o achatamento da curva de contaminação e tentando proteger o máximo possível de pessoas. 

Trabalhando em casa tenho aprendido que muitas coisas que faço (quase 100% delas) no trabalho consigo realizar remotamente. Tenho dado aulas por meio de transmissões com interação via chat com meus alunos. Funciona legal, mas me faz falta a interação interpessoal. De qualquer forma, a gente vai se virando e acho que o resultado tem sido bom. Talvez este seja um grade aprendizado deste período. A digitalização forçada de vários processos vai acabar nos mostrando que a gente pode (e vai acabar fazendo) fazer coisas de um jeito diferente. Nossa relação com produtividade vai mudar. Nossa relação com trabalho, ensino e as tecnologias digitais interativas está mudando. Esta pandemia tem uma externalidade que ainda não sei se é positiva ou negativa, mas que – tal qual um catalizador – está acelerando transformações. 

O consumo de informações via plataformas sociais cresce absurdamente. O tempo online em cada uma delas tem aumentado desde que iniciamos o isolamento social. Isso me chama a atenção por uma série de questões. Gostaria de compartilhar com você que está lendo este texto para, quem sabe, conversarmos a respeito.

1 – A primeira coisa que este crescimento evidencia é que continuamos juntos, apesar de distantes. Isso é bem clichê, mas é legal de ressaltar. As plataformas (quaisquer que sejam) podem colaborar para aproximar pessoas em diferentes contextos. Este é um deles.

2 – Por outro lado, a maneira que as plataformas funcionam acaba reforçando a criação de uma percepção falsa da realidade. A manipulação algorítmica e as bolhas podem acabar nos levando a crer que comportamentos, opiniões e idéias que circulam em setores por vezes bastante restritos, sejam percebidos como muito mais amplos. Isso pode nos levar a acreditar em algo que não necessariamente confere com a realidade. 

3 – Além disso, tem a questão de como as plataformas selecionam e disponibilizam informações para serem exibidas para nós. A ideia de que se alguma coisa está sendo bastante discutida por pessoas que se assemelham com a gente ser importante para nós, é inicialmente, bem interessante, mas pode, à medida em que o tempo passa, nos afastar de assuntos que, embora não tenhamos indicado (ou pior: nem tenhamos tido a oportunidade de indicar) que sejam importantes para nós, acabam por desaparecer de nossos radares porque a plataforma assim julgou. Isso pode ser muito ruim para todos. Nesse sentido, é muito importante 

4 – Um outro cuidado que precisamos tomar refere-se ao conteúdo que circula. As plataformas já sinalizaram que não estão muito preocupadas verdadeiramente com o que circula em cada uma delas. O que elas precisam é que estejamos lá. Se estivermos lá, poderemos consumir anúncios e é disso que elas vivem. Quanto mais tempo ficamos, mais indicamos do que gostamos (cada clique ensina algo novo para a plataforma) e, assim, podemos ser alvo de ações de comunicação bem direcionadas e, portanto, mais efetivas – para os anunciantes. Em tese, isso não é ruim. O que pode ser bastante prejudicial é que, por não estarem muito preocupadas com o teor da informação que circula, ações de desinformação tem terreno fértil. E isso pode ser bastante perigoso. Além disso, tem a questão da superexposição. Somos encorajados a compartilhar mais e mais sobre nós nestes espaços. E isso pode facilmente fugir do controle, não só pensando na questão da proteção das nossas informações e da nossa privacidade, mas também por duas questões que me preocupam de maneira especial. A primeira delas refere-se à governança dessas informações. É comum as plataformas nos levar a crer que as coisas que colocamos ali somem rápido. Algumas funcionalidades amplamente adotadas até funcionam dessa forma, disponibilizando conteúdo para nossas audiências por um período curto (digamos, 24 horas) e a gente acaba achando que depois deste tempo, este conteúdo some. Só que não é bem assim. Pode até ser que a gente ou quem nos segue não vai mais ver aquele conteúdo. Mas a plataforma não necessariamente apagou aquele material. Não há qualquer garantia de que aquilo tenha sido apagado. 

Eu avisei. Este texto não termina.

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